ANGOLA: Cabinda (15 – 16 de Novembro)

A chuva persistia e não tínhamos vontade de ficar em Pointe Noire, pelo que decidimos seguir viagem para Cabinda. Depois de nos despedirmos dos Paul’s e da Maria saímos do clube náutico em direcção à fronteira.

 Paramos num controlo policial onde registaram os dados do nosso passaporte. A fronteira é confusa, com muito movimento. Muitos carros, camiões, e sobretudo muita gente a pé. É uma zona de comércio. Já se ouvia falar português na mistura de gente que ali se encontrava. No posto de imigração a saída foi fácil. Chegou a vez da alfândega que foi um pouco mais complicado, dado que era necessário pagar mais 10000 CFA.

Estacionamos o carro na terra de ninguém, mudamos o chip para português e lá nos dirigimos ao posto de imigração. Agora falávamos português. É boa a sensação de ouvir falar a própria língua. Pela primeira vez vimos um registo electrónico de dados, reconhecidos pelo código de barras do passaporte. O polícia ficou espantado por virmos de Portugal em carro próprio. Na alfândega passaram um documento de trânsito para o carro. Parecia a primeira vez que o faziam. Notava-se que não estavam habituados aos trâmites da nossa viagem. Pagamos 6400 Kwanza. De seguida era obrigatório fazer um seguro para carro, pelo valor de 6300 Kz.

Estávamos em Angola em tempo útil e agora só tínhamos que descobrir a forma de chegar a Luanda. Tínhamos, no entanto, 30 dias para o fazer, o que nos tranquilizava muito.

Mal iniciamos a viagem começamos a notar algumas diferenças. As estradas eram boas, asfaltadas e iluminadas. Notamos que parecia haver outra alegria nas pessoas. Vimos aquilo que era frequente em Moçambique e que nunca tínhamos apreciado antes. Os miúdos a dançar a beira da estrada, mesmo sem música. Paramos num controlo policial, junto a uma serie de máquinas da Mota-Engil, o primeiro sinal de proximidade do Jonas. A estrada que ai começou, construída por esta empresa tinha excelentes condições. Era a primeira estrada em óptimas condições de toda a viagem. Bom asfalto, boa marcação, a berma era larga e muita iluminação, até na separação central havia reflectores funcionais. Pelo caminho reparamos que havia muitos militares armados, alguns deles que saiam de entre a floresta densa.

Perto de Cabinda consegui falar com o Jonas que se prontificou a ir buscar-nos ao trânsito. Seguimo-lo no seu jipe até aos estaleiros da Mota-Engil. Conhecemos o Engenheiro Tavares, chefe da empresa em Cabinda. Extremamente simpático, prontificou-se a disponibilizar um apartamento da empresa, onde iríamos pernoitar. Tinham combinado um jantar de homens em casa do Engenheiro Tavares, no mesmo prédio onde nós ficaríamos. Era dia de jogo de futebol, da selecção portuguesa contra a da Bósnia para o apuramento para o campeonato Europeu. Aqui começou a imensa hospitalidade dos nossos conterrâneos, desde ir buscar-nos ao trânsito até dar-nos dormida e jantar.

Tomamos um belo banho de água quente, pela primeira vez na viagem e vestimos roupa lavada. O jantar foi excelente. O chefe de cozinha notava-se experiente!!  Massa com lagosta e salada com amendoins e ananás. Fomos conversando, e bebendo super-bock, a primeira da viagem. Falamos da estadia deles em Angola, e sobre o seu trabalho e as excelentes estradas que construíam em Cabinda. Chegaram entretanto os outros convidados: Sr. Júlio, Roque, Eng. Tiago. Todos funcionários da Mota Engil.

Depois do jantar, enquanto Roque e Tiago discutiam pormenores futebolísticos subimos ao terraço do prédio, um dos mais altos da cidade, de onde a vista é espectacular. O que mais nos impressionou foi ver no mar, o horizonte iluminado pelas plataformas petrolíferas. Trabalham constantemente e à noite parecem focos de incêndios. Cabinda é sem duvida uma cidade de exploração de petróleo, sendo os americanos os principais trabalhadores no ramos.

Quando começou o jogo descemos ao apartamento. O Jonas decidiu que seria boa ideia visitar a cidade à noite. Antes do passeio bebemos um copo de Amarula no Hotel Maiombe, um dos mais antigos da cidade, ainda do tempo colonial. Percorremos a cidade de Cabinda durante cerca de 2 horas. Fomos a todos os cantos possíveis até mesmo a Yema, na fronteira com a RDC… interessante chegar tão próximo de um país que nos barra a entrada! Gostamos bastante desta visita. Conseguimos ver a cidade de pontos bem conhecidos do Jonas, que tão bem nos descreveu a cidade com as suas recentes obras, sobretudo as realizadas pelo Mota-Engil e aquelas que estão projectadas.

Depois de uma noite bem dormida num colchão excelente, num apartamento com muito boas condições, levantamo-nos e aproveitamos para tirar umas fotografias da espectacular vista do terraço. Durante o dia é frequente verem-se helicópteros a sobrevoar a cidade entre Malongo e Cabina e as plataformas de petróleo.

A cidade é limpa e muito organizada. Tem uma praça central grande, com um jardim que termina numa igreja. Há muitos edifícios do tempo colonial, que agora servem para residência ou estabelecimentos administrativos. Passeamos um pouco pelo centro de Cabinda e aproveitamos para tomar o pequeno-almoço no Hotel Maiombe.

O Jonas já tinha ido trabalhar e por volta das 10 horas ligou a dizer para nos prepararmos, pois tínhamos que deixar o jipe na força aérea, para embarcarmos no Antonov durante a tarde. Veio ter connosco e fomos ao estaleiro da empresa.

Saímos no nosso jipe em direcção ao aeroporto da força aérea que é continuo com o comercial. Seguíamos o Eng. Tavares e o Jonas que aproveitaram para ver uma das suas obras no próprio aeroporto da Força aérea. Reparamos numa serie de jipes pretos e novos, completamente brilhantes. No dia seguinte esperavam em Cabinda o Vice-presidente do país. E nesse momento esses carros esperavam uma serie de ministros que aterravam desde Luanda.

Esperamos pela chegada do Tenente-coronel Tunas, amigo do Jonas que nos tinha tratado do avião militar para chegarmos a Luanda. A previsão era sair pelas 15 horas. Deixamos o carro com as chaves e saímos do aeroporto. Demos uma volta pela cidade, agora de dia. Levaram-nos ao ponto mais alto de Cabinda onde se podia assistira a vista de toda a cidade. Vimos várias obras da empresa. As queixas deles é que as pessoas não sabem aproveitar o que lhes é proporcionado e destroem aquilo que é novo.

Regressamos ao estaleiro. Enquanto eles foram trabalhar nós ficamos na sala de formação, na internet. Almoçamos juntos, e às 15 horas voltamos ao aeroporto. A nossa estadia em Cabinda estava a terminar e a hospitalidade dos nossos conterrâneos tinha sido excelente. Mais uma vez obrigado ao Jonas e amigos!

No aeroporto estavam estacionados 2 aviões militares. Eram 2 Antonovs. São aviões russos, usados na 2ª guerra Mundial, conduzidos por pilotos Russos, de uma certa idade, uma vez que têm pouca componente electrónica e os pilotos jovens não têm formação para pilotar aqueles aviões tão antigos. Preparávamo-nos para viajar num avião velho sem qualquer registo dos nossos nomes. Já aqui começava por ser uma viagem surreal.

Pelas 17 horas o nosso jipe entra no recinto da pista, conduzido por um militar. Pena que as fotos são proibidas. Lá seguimos a pé pela pista. Estavam a meter o jipe no avião. As plataformas para subir ficavam com uma inclinação íngreme. Iria ser um processo complicado o embarque do jipe. O rapaz que o manobrava estava com dificuldades. Pedimos para nós próprios conduzirmos o jipe. O Pablo conduziu-o pela plataforma, lentamente, mas a inclinação era tal que foi obrigatória a raspagem da bola de reboque no chão. Dentro do avião, prenderam com 4 correntes o chassis do carro ao avião, para o segurar em todas as direcções. Os passageiros começaram a subir. As mulheres estavam carregadas com sacos e trouxas a cabeça, com uma enorme dificuldade a subir a escada do Antonov.

Nas paredes há tabuletas mas tudo escrito em russo, de forma que ninguém entende. Passamos por uma porta de ferro, muito grossa, com uma janela semelhante á escotilha de um barco. Havia apenas 4 lugares sentados que davam para uma mesa central. Estavam 2 rapazes sentados em 2 dos assentos. As restantes pessoas iam junto ao carro, na zona de carga. Havia 3 pilotos que entraram e ocuparam os devidos lugares. Havia botões, alavancas, fios eléctricos por todo o lado, numa confusão incrível. A sala era estranha, tudo muito velho e sujo, havia sapatos soltos pelo chão e a refrigeração era feita por 2 ventoinhas mínimas que começaram a trabalhar assim que iniciou a marcha do avião. O barulho era intenso, pelas 4 helices em funcionamento, mas a marcha era suave. A descolagem foi rápida e sem problemas. Não havia cintos, nem qualquer informação sobre medidas de segurança.

Um dos rapazes que trabalhava no avião informou-nos da dificuldade que as vezes surgem na pilotagem. Por exemplo se o trem de aterragem não sai, é necessário retira-lo com a ajuda de um pé de cabra. E nós dentro daquele avião…  Sem duvida uma experiência única na vida. 

Durante o voo, o Pablo que não desligou o telemóvel, recebeu uma mensagem do roaming a dar as boas vidas a RDC. Não pisamos o solo, mas estivemos perto da fronteira e sobrevoamos o espaço aéreo desse pais tão conflituoso… Quarenta e cinco minutos depois chegou a hora de aterragem. O avião começa a baixar a altitude. A aterragem foi suave, digna de um piloto muito profissional. As mulheres bateram palmas e sorriram. Tínhamos quebrado a viagem por via terrestre mas foi sem dúvida um momento alto desta viagem. E finalmente estávamos em Luanda trazidos num avião que, no passado era carregado de blindados e armamento usado numa guerra tão marcante!

Na pista um polícia pediu os nossos passaportes e os documentos do carro. Não levantaram qualquer problema e orientaram-nos para a saída, dizendo é entre aqueles 2 aviões… Simples!

Mal saímos ligamos a minha amiga de escola e de cidade Ana Torgo. Deu-nos as orientações devidas para sair e esperar por ela no parque de estacionamento do aeroporto 4 de Fevereiro. Assim fizemos. Coincidimos com a chegada do Primeiro-ministro de Portugal, Pedro Passos Coelho, que complicou um pouco o trânsito.

Encontramos a Ana era já noite, e fomos com ela até a Praia do Bispo, onde a sua tia Salett tem um negócio. Mais tarde fomos os 4 para Luanda sul, na área de Talatona, ou seja a nova área rica da cidade, repleta de condomínios de luxo, hotéis e o mais recente shooping da cidade, o Belas Shooping. Por dentro nem parece África. A Salett e Ana receberam-nos como reis depois deste dia fatigante. Tínhamos à disposição uma cama e banho quente e comida na mesa, na companhia de duas pessoas muito simpáticas. Aqui continuou a hospitalidade portuguesa… Obrigado!

 

 

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2 respostas a ANGOLA: Cabinda (15 – 16 de Novembro)

  1. carla ipo diz:

    Ola a vossa viagem e digna de um filme ! Os atores principais são superiores aos melhores atores de hollywood! Espero continuar a assistir a este “filme” maravilhoso e ja agora cheguem inteiros e com saude ao vosso destino, porque apesar de serem bons nÃO TEM DUPLOS!
    A minha filha pergunta se tem observado mais machos ou femeas? bjs

  2. Bruno Oliveira diz:

    Força continuem!
    A esperança e a vontade faz com que tudo aconteça 🙂

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