MOÇAMBIQUE – Parque Nacional da Gorongosa

GNP

Apesar de estar localizado a uma distância aproximada de 3 h da cidade da Beira, o planeamento da ida à Gorongosa implica sempre uma noite de campismo, em Chitengo, a aldeia que dá acesso a este fabuloso parque, ex-libris da região de Sofala e quem sabe de Moçambique.

Com cerca de 4000 km2 de extensão, este parque tem uma variedade paisagística invejável, com o vale do rio Pungue e uma serie de montanhas e planaltos que tornam a sua paisagem digna de repetidas visitas. É no monte Gorongosa com cerca de 1860 metros de altitude que nascem os rios que irrigam a região, tornando-a tão rica e variada em ecossistemas. da ida à Gorongosa implica sempre uma noite de campismo, em Chitengo, a aldeia que dá acesso a este fabuloso parque, ex-libris da região de Sofala e quem sabe de Moçambique.

Sexta-feira é o dia dos preparativos de camping no meio da savana e dos seus animais. Mantimentos necessários, bom acompanhamento para a fogueira noturna e o material fotográfico necessário para captar algumas cenas de vida selvagem. Da Beira a Inchope, o cruzamento com a estrada principal do país (N1) são 135 km. Uma via em contínua reparação, aliás uma reparação de qualidade nitidamente má, manifestada pela quantidade de novos buracos no asfalto que aí se encontram a cada passagem. Em Inchope gira-se á direita, até ao desvio para o Parque Nacional da Gorongosa, aproximadamente 60 km de uma estrada meio remendada, onde também abundam os buracos, que servem para dificultar a viagem dos automobilistas. Os últimos 28 km até Chitengo, através de uma picada estreita, pelo meio da savana, fazem-nos sentir no parque e a atenção já se perde no meio dos arbustos tentando vislumbrar algum animal selvagem.

As características geográficas desta área selvagem fez da Gorongosa um dos melhores e mais ricos parques naturais, em termos de fauna e flora, de África austral, mas a longa guerra civil com palco nesse fantástico cenário dizimou uma larga percentagem dos animais aí existentes. Recordo-me em 2007, numa primeira visita a este parque que na receção, junto ao campismo existia uma pilha de sucata constituída por inúmeras armadilhas de ferro oxidado e rolos de arame farpado, usados por caçadores furtivos nesse período sangrento de Moçambique.

Desde 2004 que o milionário Carr e a sua fundação assinaram um acordo de recuperação do parque, tendo como objetivo não só a manutenção da rica flora existente, como a reintrodução de algumas espécies, bem-sucedida com búfalos e bois-cavalo (gnous). O projeto estendeu-se às comunidades vizinhas, com projetos de ecoturismo, que têm sido de enorme utilidade para os habitantes da região.

O parque de campismo em Chitengo, recentemente reabilitado, pelo grupo Girassol melhorou as suas condições, melhora essa acompanhada pela subida dos preços, que torna quase proibitivo consumir uma simples Manica no restaurante existente. Está bem equipado com uma piscina frequentada por babuínos e facoceros (warthogs), que lembram os banhistas que estamos no meio da savana, assim como com uma área de campismo e bungalows diferentes, de acordo com os diversos gostos e o distinto peso das carteiras.

Na entrada recolhemos o mapa, ou melhor a fotocopia cedida com as picadas abertas naquele momento ao público equipado com um todo-terreno. São caminhos estreitos, irregulares, moldados pelas chuvas prévias que vão passando por clareiras e pequenas lagoas onde se avista a fauna existente. Quanto mais cedo se inicia o safari maior a probabilidade de um encontro com os animais. Abundam antílopes, palancas, waterbucks, kudus, impalas, cabritos-vermelhos e até os raros Inhalas. Búfalos apesar de raros, encontram-se misturados com os abundantes facoceros, que correm de cauda empinada.

Neste parque, um local obrigatório de passagem é o rio junto à picada 5 onde abundam aves de pernas longas ao lado de crocodilos e macacos sedentos. Esta picada conduz á casa dos leões. A mítica casa dos leões assim chamada pela abundância destes felinos nos tempos áureos do parque. Agora a sorte precisa de acompanhar o turista para que se consiga avistar um dos cerca de 40 leões existentes. Em 2007 avistamos entre o matagal duas pequenas crias fugitivas que se perderam na savana, sem deixar rasto. Sim existem leões na Gorongosa!

A planície junto á casa de leões serve de largo pasto aos antílopes nomeadamente waterbucks, que se espantam com os 4×4 em passagem, mirando-os com uma atenção momentânea, quebrada de imediato por uma fuga rápida para longe do predador.

As aves são uma das atrações da Gorongosa, abundando cerca de 500 espécies diferentes. Junto aos rios os crocodilos e os hipopótamos são avistados longinquamente, vivendo tranquilamente neste paraíso natural, em que o principal predador continua a ser o caçador furtivo.

Um outro local famoso, desde os tempos coloniais é o miradouro dos hipopótamos. Chegando pela picada 11 encontra-se a ruina do que foi um bar em frente a um grande lago, que na época das chuvas estará repleto de crocodilos e hipopótamos. O local ideal para esticar as pernas depois de algumas horas a conduzir pelas picadas esburacadas do parque.

É também uma área preferida dos elefantes. Algumas vezes comprovamos a veracidade da expressão “Memória de elefante”. Dizem os conhecedores destes paquidermes que têm lembranças da época de guerra, sendo a justificação da agressividade dos elefantes da Gorongosa os anos de guerra sangrentos, vividos pelos mais velhos elefantes deste parque. Assustam-se e assustam os turistas, quando surpreendidos pelo barulho de um motor. É necessário desligar o carro, sossegar e deixar a manada passar, sem nunca ameaçar as pequenas crias existentes, caso contrario teremos que enfrentar uma progenitora furiosa.

Numa das últimas visitas o encontro com elefantes foi magnífico. A certa altura avistamos entre uma vegetação de palmeiras curtas e frondosas uma manada de elefantes. Eram cerca de 20 paquidermes chefiados por uma fêmea com um ar duro manifestado por uma das presas partidas, quase ausente. Esta fêmea ao sentir a presença humana, ou melhor do carro levanta a tromba e vira-se na nossa direção, mantendo o olhar e a atenção todo o tempo que permanecemos parados. Queríamos seguir mas isso implicava uma certa aproximação que poderia não ser bem aceite pelo animal. Deve tentar-se sempre ficar na direção contraria ao vento de forma a não sentirem o nosso odor, mas naquele lugar estreito era impossível. Urrava e mantinha as orelhas em movimentos repetidos e furiosos. Percebemos que estava aflita e decidimos seguir em frente, dado que a marcha atrás era quase impossível, senão mais perigosa. No momento em que o carro realmente passa ao nível da manada esta fêmea sai disparada do meio da vegetação, com a cabeça inclinada e as orelhas para trás, em sinal de ataque iminente. A velocidade que alcançamos afastou-nos no caminho estreito e reparamos que o elefante tinha parado, ocupando quase toda a picada.

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Permaneceu de orelhas erguidas, enquanto todo o resto da manada passou por trás dela, com as pequenas crias em passos rápidos atravessando a estrada para uma clareira do outro lado. Não nos tínhamos apercebido que era um local de passagem dos elefantes e quase fomos surpreendidos no conflito homem-animal, tão falado nesta região. Já a salvo estivemos horas a observar a manada, em banhos de lama e terra mais húmida que usam para refrescar a grossa pele. Fabulosos seres vivos do admirável Mundo!

A floresta de fever trees é um outro local fantástico deste parque. É um imenso bosque de árvores de troncos amarelos e com escassa folhagem que se perde de vista, dando a impressão de se estar num bosque de fantasia. Os babuínos são os principais habitantes desta zona, subindo em movimentos ágeis os troncos das fever trees.

Depois de um dia de passeio pelas picadas é altura de relaxar no campismo, preparando uma fogueira, assistindo ao cair do dia e surgir da noite com os ruídos animalescos característicos. O dia seguinte começa bem cedo, para o safari ser proveitoso!

O regresso a casa, pela mesma via cruza obrigatoriamente a ponte sobre o rio Pungue, local de paragem quase obrigatória para contemplar a fabulosa paisagem, assim com a atividade debaixo da ponte dos simpáticos moradores da zona.

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