TOGO: Lomé – BENIN: Ouidah – Abomey – ketou – NIGÉRIA : Ilara (24 – 28 de Outubro)

Segunda-feira, dia de pedir vistos. A entrada na cidade é caótica com a estrada em muito mau estado. Conforme combinado ligamos ao Mr. Zawif que nos enviou um empregado apara nos acompanhar á embaixada da Nigéria. Depois de nos dizerem que deveríamos ter pedido o visto no país de origem lá conseguimos uma entrevista com o Cônsul, para esclarecer a situação. Preenchemos 2 páginas repetidas (por falta de químico) e entregamos os formulários com os passaportes.

Chegou a hora da reunião com o Cônsul, um homem alto de meia-idade, que vestia umas calças e blusa do mesmo tecido africano, em tons amarelos e bordados com relevo. Diz-nos que não poderia conceder-nos o visto por não sermos residentes. Quando nos perguntou a profissão, notou-se o seu espanto. Lentamente o discurso começou a mudar e o que é certo é que nos concedeu um visto de 7 dias de trânsito para atravessar toda a Nigéria. Sabíamos que aqui a corrupção funcionava por relatos de outros viajantes, mas o que é certo é que nós conseguimos os vistos pagando o normal valor de 44000CFA.

Após recolher o passaporte com o visto da Nigéria, pelas 15 horas, dirigimo-nos á embaixada do Benin.  Após pagar 10000 CFA e depois de comentar com a senhora, obviamente católica, sobre a visita, em Novembro do Papa ao Benin, lá conseguimos que na manhã seguinte estivesse pronto. Depois de passear um pouco por Lomé decidimos voltar ao Robinson Plage, pois aí o banho no Atlântico estaria garantido.

Nessa noite ao contrário daquilo que pensávamos, passamos por um horrível vendaval. Pelas 23 horas acordamos com fortes rajadas de vento. O toldo que tínhamos deixado aberto levantou-se com tal violência que entortou os suportes. Descemos com toda a pressa para o compor e enrolar. O vento cada vez mais forte acompanhou-se de uma chuvada que rapidamente se transformou numa tempestade tropical, com chuva, vento e relâmpagos mesmo sobre nós. A tenda parecia que ia levantar voo e destruir-se por completo. Não iria aguentar. Tentávamos segura-la da melhor forma. Os lençóis, colchão e nós próprios completamente encharcados. A situação não parecia acalmar pelo que organizamo-nos de forma a sair e fechar a tenda o mais rapidamente possível. Resguardamo-nos numa área coberta onde o segurança assistia, impávido e sereno aquela tempestade que iluminava todo o mar. Perguntou: “Probleme?” Respondemos pingando água “Rien!” Bonito o espectáculo, quando se está a salvo! Ainda a chuva caia quando decidimos mudar de roupa, vestir algo seco e dormir no carro…

No dia seguinte, 25 de Outubro, após a noite mal dormida, saímos do carro esperando a bonança depois da tempestade. A tarefa era simples: secar! Abrimos a tenda e colocamos tudo em direcção a sol que era já forte, apesar de no horizonte se aproximarem nuvens escuras. Arrumamos tudo enquanto conversávamos com uma vizinha dinamarquesa que assistia á nossa azáfama. Vive com o marido em Lomé. Trabalham para uma empresa de construção no Porto de Lomé. Muito simpática e cordial ofereceu-nos o pequeno-almoço, que a sua acompanhante, Antoinette nos trouxe.

Criamos ali amizade com toda esta gente tão simpática, juntamente com os funcionários do Robinson Plage. Despedimo-nos de toda a gente e recolhemos o visto do Benin. Almoçamos fufu (massa típica feita com uma mistura de farinhas) com peixe e dirigimo-nos a fronteira com o Benin. Muito simples a passagem desta fronteira. Compramos um novo laissez-passar (5800 CFA) para o Toyota e dirigimo-nos ao Grand Popo uma zona de praias com a paisagem dominada com coqueiros. Ficamos no Victor´s Place, a casa de um rapaz chamado Simone, com um bungalow e sítio de campismo. Depois da noite anterior decidimos ficar num quarto. Merecíamos uma noite bem dormida. Jantamos no bar do Simone, ”gari”, ou seja farinha de mandioca, com peixe. Ficamos mais um pouco, a beber cerveja e conversar até que um grupo de pessoas locais começou a cantar e a tocar tambor. Rapidamente se transformou numa verdadeira festa Africana, com cantos e danças quase tribais, que pareciam imitar animais. Mais tarde um dos rapazes enquanto dançava manejava marionetes de cerca de 1 metro de altura que pareciam ter vida própria. Os movimentos que não somos capaz de fazer, estavam ali, num boneco e no seu monitor… Foi aí que o Pablo aprendeu a imitar o peru…

No dia seguinte fomos na direcção de Ouidah, onde visitamos alguma da sua cultura. É uma cidade com história, sobretudo na época da escravatura, em que também os portugueses entram.  Há um percurso que era antes percorrido pelos escravos, desde um forte português até a praia onde um marco refere o “Ponto de não retorno”. Daí saiam em barco para a América e Europa, para nunca mais voltar. É Património da Unesco desde 2006. Um dos portugueses, Francisco de Sousa a viver no Brasil foi um dos principais mentores de todo este comércio. Num mural vimos a representação atroz de tal época da história. E Portugal com este peso de participar no comércio humano…

Um outro aspecto importante desta vila e também do país é a sua relação com os fetiches e vodoo. Visitamos o templo das pitões, onde há cerca de 50 destes exemplares. São sagradas e motivo de culto. Ter uma ao pescoço é uma sensação estranha!

Na rua reparamos num aglomerado de pessoas vestidas com trajes coloridos e colares de conchas. Era uma cena de vodoo que nos proibiram de fotografar. Um  grupo de 4 homens e 4 muheres, de diversas idades, dançavam. Os homens saltavam em grandes piruetas que faziam lembrar capoeira, as mulheres com gestos dos pés e braços ritmados… os corpos brilhantes do suor moviam-se de forma muito ritmada…

Fomos na direcção de Cotonou e á chegada a Cocotomey, procuramos um mecânico para nos mudar o óleo do carro, uma vez que já tínhamos feito 10000 Km desde a saída de Portugal. Antoine, um rapaz que conhecemos no Grand Popo deu-nos a referência deste seu amigo. Muito simpático mudou o óleo e filtros sem cobrar mão de obra. Afinal eramos todos amigos! Claro que recompensamos tal eficiência.

Voltamos a Ouidah, onde pocuramos o Jardin Brasilienne, um espaço que já teve melhores dias, mas mesmo assim deu para relaxar e aproveitar uma piscina enorme, tudo por 6000 CFA. Acampamos entre coqueiros!

No dia seguinte fomos para Abomey, onde visitamos um dos palácios da cidade, transformado em Museu e Património da humanidade. Mais uma vez com fotos proibidas! Nos tempos da formação do reino de Dahomey (como se chamava o Benin antigamente), cada rei construía um palácio para si e as suas esposas. O espólio é bonito apesar de escasso e as condições de preservação muito degradadas. É pena pois é de facto digno de ver. Mais uma vez notamos a relação de amizade dos antepassados com Portugal, sendo parte do espólio prendas de tecidos e cerâmica dos portugueses negociantes de escravos com os reis de Dahomey.

Depois da visita feita decidimos retomar a estrada e andamos mais cerca de 60 km até Ketou. Não tínhamos referência de nenhum local para dormir. Vimos uma enorme igreja católica com um amplo espaço lateral, que era o recreio da escola da missão. Pedimos autorização para ficar, que foi cedida pelo Padre George. Estivemos algum tempo a conversar com ele, que nos alertou dos perigos na Nigéria. Disse que o crime é frequente, que a polícia é chata e que cruzar a fronteira é stressante. Estávamos já habituados aos comentários sobre os perigos na Nigéria. Falavam em assaltos á mão armada e em barricadas na estrada, em raptos dos comerciantes de petróleo e no terrorismo bem presente no país. Com tudo isto e ainda mais a confirmação por um padre de que os Nigerianos são agressivos e violentos começou a gerar-se preocupação nas nossas cabeças… mas tinha que ser não havia outra possibilidade e se outros tinham passado nós também arriscaríamos!

No dia 28 de Outubro fomos acordados pelas crianças da escola que começavam a chegar. Tínhamos reparado que havia missa. Assistimos ao final da missa e enquanto esperávamos o Padre George. Despedimo-nos dele enquanto ele cumprimentava os seus paroquianos e bendizia as crianças que esperavam o mesmo de nós ao inclinar a cabeça na nossa direcção.

Chegamos a Ilara, uma aldeia dividia a meio pela fronteira, com uma parte no Benin e outra Nigeriana. A saída do Benin foi simples. Depois vinha a vez da entrada na Nigéria. Entramos nos meandros da aldeia e as pessoas em todas as direcções gritavam e sorriam, cumprimentavam-nos com uma simpatia inesperada. Onde estava a agressividade falada?

Na imigração carimbaram o passaporte e depois de perguntarem a profissão um dos polícias mais jovens diz que tem dor no sítio do coração. Perguntamos se estava apaixonado. Claro que foi risota geral e final de conversa sobre medicina.

Na polícia da alfândega estavam 2 policias que nos pediram o Carnet de passage. Se éramos turistas tínhamos que ter carnet, a não ser que estivéssemos de visita e nesse caso emitiam um laissez-passer. Mudamos de imediato o discurso. Não éramos turistas mas sim visitantes em Moçambique onde já tínhamos trabalhado. Sendo assim emitiram o documento que nos permitiria ir a Calabar e daí atravessar para os Camarões. Estávamos em trânsito e não em turismo! Afinal foi mais fácil que o previsto e sem pagar nada…

Seguimos em direcção a Benin City. De todas as direcções voltamos a assistir ao fenómeno simpatia dos Nigerianos. Durante 6 horas de condução fomos parados em 44 check-points. Servem para tudo. Vacina da febre amarela, controlo de passaporte, mais imigração, mais policia e mais policia ainda, não foram tão rudes como aquilo que nos tinham dito e alguns até bem simpáticos. Perguntam frequentemente se tínhamos alguma prenda para eles e com a resposta negativa diziam Wellcome e deixavam-nos partir. Fazem questão de mostrar que somos bem-vindos ao país deles, e que estamos em segurança pois há polícia por toda a parte que nos protege. Estão armados, com kalashnikovs, e a maioria com coletes a prova de bala. O nosso truque foi começar logo com um sorriso e cumprimenta-los efusivamente. Mesmo que estejam com uma cara de mau acabam por ceder e acabamos todos a rir… We are brothers, We are friends, no problem!

Abeokuta é uma cidade enorme tal como pensávamos que são todas na Nigéria. Foi fácil chegar a auto-estrada que liga Lagos a Benin-City. Desta forma passamos ao lado da confusão e perigos de Lagos.  Os check points intensificaram-se e a média de km era 40 km/hora.  A certa altura paramos numa fila enorme numa estrada que habitualmente tem 2 faixas estava agora transformada em 4 e uma quinta para motos. As pessoas dos outros carros que paravam ao nosso lado gritavam “Oibo”, que significa branco. Quando perguntávamos o que se passava diziam: There´s no road! De facto havia pedaços da estrada em construção, mas era impossível que não houvesse estrada para continuar… Havia mas muito degradada nessa zona de cruzamento!

Demoramos cerca de 1 hora a sair daquela confusão e chegamos a Benin City já de noite. Nesta estrada é frequente mudarem o sentido da estrada. Há 2 vias de cada lado em grande parte do percurso, mas de repente pode vir um carro de frente, e outro e outro, e passamos a estar numa estrada de 2 sentidos. E ninguém acha isto estranho. Também nós a uma certa altura tivemos que ir em contramão… Em África sê africano… Aliás não havia outra hipótese. E aquilo que não queríamos fazer nunca na Nigéria já estávamos a fazer… Conduzir à noite! Na estrada onde até roubos armados e raptos ocorrem!

Chegamos ao Edo Delta Hotel exaustos e com sensação de insegurança. Vigiado por todo o lado, estacionamos o carro e os seguranças vieram logo ao nosso encontro. Acampar nem pensar. Ficamos um quarto nojento por 4000N. No restaurante apenas fried rice. Tentamos sair para comer na rua, mas os seguranças disseram que era perigoso… Enfim! Nigéria!

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4 respostas a TOGO: Lomé – BENIN: Ouidah – Abomey – ketou – NIGÉRIA : Ilara (24 – 28 de Outubro)

  1. "Engº" Uro IPOP diz:

    Aventureiros…Destemidos…Comparáveis aos grandes Descobridores.
    Que continuem a ter uma BOA VIAGEM.
    Ler o vosso diário é interessante e fascinante, por vezes um pouco assustador. Prossigam com as crónicas desta vossa aventura.
    Fiquem bem. Um abraço.

  2. Júlio Silva diz:

    Viva. Caros Amigos.
    Excelente… Ver que a distância que nos separa é tão grande…mas, só geograficamente.
    Confronto-me muitas vezes a perguntar à Élia, e os “Africanos”, já não dizem nada desde o dia…tal !! Foi criada uma necessidade de saber qual o vosso paradeiro e sentir as vossas vivencias…Sei o que vos espera é um sem fim de necessidades, básicas…como luvas, linhas, etc…Pensei que seria interessante após a vossa viagem, utilizar o vosso blog, como forma de motivar pessoas para recolher material para vos poder enviar.
    Que acham da ideia….
    Sempre ligado!!!
    Cumprimentos.

  3. Essa e uma excelente ideia. No blog ha uma pagina que se refere a voluntariado que tem como objectivo definir uma forma de varias pessoas participarem nessa ajuda. Apos chegada trataremos disso!

  4. Essa e uma excelente ideia. No blog ha uma pagina que se refere a voluntariado que tem como objectivo definir uma forma de varias pessoas participarem nessa ajuda. Apos chegada trataremos disso!
    Abracos dos Africanos!

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